Arte e Neuroplasticidade

Atualizado: Mar 18


A arte é um fenômeno complexo e exclusivamente humano. Ela envolve produção de material visual (como pinturas, desenhos, gravuras), musical e outros multissensoriais, como a dança. O resultado do processo criativo denota, via de regra, uma releitura da realidade percebida ou a sugestão de um novo conceito de realidade, sendo a expressão de um intrincado trabalho cerebral que agrega percepção, criatividade, capacidade de transformar percepção em ação, emoção e memória.


O processo criativo artístico por si só não é completamente conhecido do ponto de vista neurocientífico, até porque ele é essencialmente multimodal e envolve diversas faculdades cognitivas. Entretanto, hoje em dia sabemos que o cérebro processa as diversas habilidades necessárias à produção artística e que conforme elas são usadas, tornam-se mais sedimentadas e “ágeis” para a mente.


A primeira faculdade necessária é a cognição criativa. A cognição criativa é a que permite ao artista pensar de novas maneiras, desenvolver novos padrões de ideias ou conexões inéditas entre ideias já existentes, criando produtos ou obras que sejam inovadores. Ainda que essa habilidade não esteja localizada em um ponto específico do cérebro, sabemos que diversos processos cerebrais são ativados quando artistas são solicitados a criar (pinturas, músicas, improvisos).


Outra habilidade é a capacidade de converter ou traduzir a percepção em ação, ou seja, o que o artista percebe (através dos seus sentidos) em algo que ele possa produzir a partir de uma habilidade física, seja ela pintar, desenhar, tocar instrumentos, dançar, cantar. A percepção, por sua vez, é um produto do que os nossos sentidos recolhem do meio externo (visão, audição, paladar, tato e olfato) e é processado em conjunto com elementos da nossa memória e emoção. Assim, além do estímulo externo e do repertório pessoal do artista, existe uma faculdade cognitiva cerebral que reúne esses elementos e o converte em produto artístico. Quando a criação envolve ainda

movimento, de qualquer tipo, as áreas motoras do cérebro também são envolvidas e ativadas, bem como aquelas que integram o planejamento e a percepção ao programa motor que será desempenhado pelas diversas partes do corpo.


A habilidade de desenhar e de pintar, por exemplo, envolve olhar repetidamente o objeto a ser desenhado e o desenho em execução, efetuando comparações constantes. Envolve guardar e memorizar as informações percebidas sobre o objeto a ser desenhado e usá-las através de um ato motor usando as mãos. Assim, diversos domínios cognitivos são usados simultaneamente no ato de desenhar e de pintar.

Quando o assunto é música, por outro lado, existe a necessidade de adquirir e manter ao longo do tempo uma série de capacidades sensoriais e motoras associadas, com alto grau de precisão e métrica. O tipo de movimento feito resulta em um som específico e, em sequência, os movimentos e os sons geram uma composição, com melodia e ritmo. Enquanto um músico toca um instrumento, ele realiza simultaneamente a habilidade de ver e ler uma partitura, convertê-la em movimentos finos de uma ou de ambas as mãos, sendo uma a não-dominante, e, ainda, perceber o som produzido e checar se o produto musical está correto e condizente com o desejado. O treino musical assíduo resulta em melhora de habilidades sensoriais e motoras, devido à capacidade de desencadear o fenômeno da neuroplasticidade, em que novas redes de neurônios se organizam ou reorganizam. Esse fator permite que atividades musicais possam ser usadas de forma terapêutica, como parte de um programa de reabilitação neurológica em pacientes com transtorno do desenvolvimento e distúrbios de linguagem, por exemplo. O treinamento musical com atividades ativas permite aprender e reaprender associações entre funções motoras e auditivas, como é o caso da voz, por exemplo.


Estudos na área de neurociências já demonstraram que existem diferenças no cérebro de artistas, quando comparados a indivíduos que não estudam arte. Inclusive, essas diferenças aumentam ao longo, por exemplo, do tempo de formação de um profissional em artes. Isso mostra que as habilidades citadas podem ser, até certo ponto, aprendidas a partir do treinamento e que o cérebro pode se moldar a esses processos e se reorganizar conforme o aprendizado artístico. Isso corrobora que a arte é um poderoso treinamento cognitivo para o cérebro e é capaz de promover impacto na sua organização e circuitos.


Artistas que utilizam a mão, por exemplo, como pintores, desenhistas, pianistas, violinistas, têm circuitos e regiões do cérebro destinadas a programas motores mais desenvolvidas. Artistas visuais, por sua vez, também demonstram maior performance em testes que avaliam capacidade de pensar de forma divergente, elaborar modelos de sistemas e usar imagens.


O treinamento artístico, assim, modifica o processamento cerebral em regiões que participam da integração entre as funções de percepção do mundo e as de ação dela originadas. Com isso, é um potencial indutor de neuroplasticidade cerebral e uma ferramenta de aumento e de manutenção de performance cognitiva, o que é altamente desejável atualmente, quando se pretende viver por mais tempo e, de preferência, com um cérebro saudável.



Dra. Gabriela Pantaleão - neurologista na Clínica Rascovski

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